Uma entrevista apaixonante com Dom Moacir - Arcebispo de Ribeirão Preto

Dia 09 de março de 2015. Chegamos ao Palácio Episcopal às 19h30 em ponto. Tocamos a campainha e na janela apareceu uma irmã que pediu para entrarmos. Entramos pela porta da frente e ficamos pensando como o Bispo nos receberia. Rimos, ao mesmo tempo em que o estômago gelou. Foi quando ele apareceu e de maneira muito simpática cumprimentou a todos. Entramos em uma salinha lateral, local de recepção às pessoas que o visitam. Nos sentamos e nos sentimos acolhidos.

Abaixo, transcrevemos as perguntas e respostas. Há perguntas formuladas pela Pastoral da Comunicação e por fiéis de nossa Paróquia. Após nos apresentarmos e comentarmos sobre o trabalho da PasCom, as perguntas começaram.

Primeiramente a PasCom lembrou sua fala quando de sua nomeação  em 2013 “Vou para Ribeirão Preto com o coração aberto, com o desejo de conhecer e acolher a todos, para juntos fazermos uma caminhada de Igreja" e questionou como ele se sentiu na cidade.

DSCN5132.jpgPara ele era muito claro que viria para uma igreja centenária, que tem uma história e uma caminhada. Desde que a noticia foi publicada na arquidiocese, já se sentiu bem acolhido. Mesmo à distância e antes de assumir, já recebia telefonemas e emails, o que lhe fazia sentir-se acolhido. Dia 07 de maio fez reunião com o conselho, dia 20 de junho assumiu e dia 23 aconteceu a missa de acolhimento com fiéis, bispos e padres.  antes d e assumir dia 07 de maio reunião com conselho consultor depois 20 de junho assumiu e dia 23 a missa de acolhimento com fieis, bispos e padres presentes. Desde então assumiu o compromisso de se encontrar com as 10 foranias, momento de maior contato com o povo.

Dom Moacir relembrou depois sua caminhada em São José dos Campos, onde nasceu, foi padre e bispo. Ele foi o sexto padre ordenado na Diocese. Atuou como pároco na Paróquia Coração de Jesus e na Catedral de São Dimas; também foi vigário geral de São José dos Campos. Em 2004 tornou-se Bispo. Por já atuar como vigário geral, já era testemunha ocular do desenvolvimento da diocese, de seu crescimento. Como bispo, continuou acompanhando de perto aqueles que o sucederam nas paróquias por onde passou.

Curiosos, perguntamos se sofre com as diferenças de clima entre as cidades. Dom Moacir explicou que sente muito calor aqui, mas já esperava por isso, pois seu dentista em São José dos Campos tinha um filho estudando aqui e já o havia alertado "É muito quente em Ribeirão Preto!"

Perguntamos depois quais ações concretas que nossa igreja deve fazer para atrair aqueles cristãos dispersos, as ovelhas perdidas.  Dom Moacir disse que se preocupa mais com a formação do cristão. Explicou que de fato há uma problemática de fiéis que não são comprometidos; dada a baixa convicção, qualquer vento que bate é capaz de afastá-los da Igreja. Por isso, a Igreja precisa descobrir novos meios de levar pessoas ao encontro com Cristo. "É preciso que as pessoas se apaixonem por Cristo. Se isso acontecer, não haverá esse bate e volta". Nesse sentido, argumenta que é fundamental trabalhar a formação enquanto Igreja, transmitindo a fé cristã.

"Como ser mais acolhedor em nossas comunidades?". A fim de motivar uma participação mais ativa das pessoas na comunidade, a PasCom pediu sugestões a Dom Moacir a partir de sua longa experiência pastoral. Dom Moacir respondeu: "Precisamos de mais pessoas convertidas e convictas, que transmitam às pessoas a alegria de ser cristão. Quando muitas pessoas se envolvem,  isso ajuda outras pessoas a descobrirem também essa motivação do encontro com Cristo. É como uma corrente do bem transmitindo a motivação". Para Dom Moacir, a falta de convicção é que faz com que alguns católicos troquem muitas vezes de paróquia, ou mesmo com que procurem outras religiões.

Questão levantada por um de nossos paroquianos, a PasCom perguntou qual a melhor resposta que pode ser dada àquelas pessoas que dizem que a Igreja é muito rica, especialmente quando se referem ao "laudêmio". Dom Moacir explicou que um breve olhar sobre as paróquias de Ribeirão é capaz de mostrar: se não fazem quermesses e outros eventos, elas não sobrevivem. Dessa forma, não é verdade que a Igreja é rica; pessoas que afirmam isso não são ativas ou participantes o suficiente para conhecer a realidade. É preciso lembrar que a arquidiocese mantém um seminário,. Os recursos ajudam a suportar as despesas. Dom Moacir destacou que, mesmo com as dificuldades, ficou admirado ao chegar a Ribeirão Preto e se deparar com a estrutura de algumas paróquias, dentre elas a Catedral.

Outra pergunta enviada pelos nossos paroquianos foi sobre como se posicionar diante de algumas críticas que a Igreja Católica recebe, a respeito da idolatria de imagens. Dom Moacir explicou que a imagem é um sinal que deve nos ajudar a lembrar dos ensinamentos daquele Santo. "Nós católicos não adoramos imagens. No caso de uma imagem de Nossa Senhora, por exemplo, a imagem é uma recordação da mãe de Jesus, um sinal". Dom Moacir explicou que devemos ter Jesus como centro, pois Deus condena a idolatria. Da mesma forma que não se deve idolatrar esculturas, imagens, também não se deve idolatrar a Bíblia, como algumas pessoas erroneamente o fazem. Que o sinais, os símbolos, sejam apenas uma forma de canalizar uma boa lembrança, um bom ensinamento.

Considerando-se que o Bispo também é um ser humano, como todos nós, escapamos um pouco para perguntas de cunho pessoal. Além das leituras relacionadas ao catolicismo, perguntamos quais seus livros prediletos. Ele explicou que, infelizmente, fora da biblioteca católica não tem livros favoritos. "Não dou nem conta de ler tudo que precisaria para o Ministério". Mas de uma boa música, ele não abre mão. "Gosto muito. Principalmente de música clássica". Depois, questionamos se tem um time de futebol favorito. "Não tenho nenhum time. Só assisto Copa do Mundo. De quatro em quatro anos estou lá acompanhando".

Um pouco mais relaxados e à vontade pela forma com que Dom Moacir respondia às perguntas, perguntamos se as pessoas costumam agir com muita formalidade para com ele. Ele respondeu que para o Bispo costuma causar um certo estranhamento o excesso de formalismos, não só de fiéis, mas também de alguns padres. "Não gosto de muita formalidade. Basta usar um 'Senhor' que já está bom", disse Dom Moacir em meio a risadas.

A pergunta seguinte foi sobre o apoio da arquidiocese para os trabalhos das pastorais sociais. Dom Moacir disse que caridade é essencial para Cristo; porém, que há poucas pessoas que vestem essa camisa, então que é sempre um desafio manter as pastorais sociais vivas. "É preciso despertar nossos fiéis. Fazê-los atender aos apelos para com os mais necessitados". Explicou que, nesse sentido, há um trabalho da Comissão Episcopal para o serviço da caridade.

A pergunta seguinte foi sobre a Pastoral Familiar. Visto que o Papa Francisco vem enfatizando a importância da família, como fortalecer e desenvolver as pastorais familiares? Dom Moacir explicou que o trabalho com as famílias é longo. Envolve desde a preparação do batismo, até os grupos de casais. Disse que é preciso avançar mais na evangelização da família. Como exemplo, citou que normalmente há uma participação forte para obtenção dos sacramentos da eucaristia e da crisma, algo quase formal, que Escadaria.jpgnão se concretiza em uma participação ativa dentro da Igreja. "Temos conhecimento de pais que trazem os filhos até a porta da Igreja, para a catequese ou a missa, e esperam do lado de fora, sem entrar". Por sua vez, há também exemplos positivos: filhos que com o tempo conseguem trazer os pais com eles e estes posteriormente acabam se envolvendo em pastorais, doando-se um pouquinho para a igreja.

Outra pergunta de um paroquiano foi sobre os custos dos casamentos na Igreja, que às vezes são elevados e acabam até afastando casais que poderiam sacramentar sua união. Dom Moacir foi direto e objetivo na resposta: não é a Igreja que é cara; é a música, a decoração, o buffet... Enfatizou que muitas pessoas dão mais valor a esses aspectos, que são o que de fato tornam tudo caro; pouco valorizam o sacramento. "Se colocarem na ponta do lápis, verão que o valor da Igreja é ínfimo comparado aos demais itens".

Depois, foi pedido que ele explicasse um pouco melhor sobre o processo de anulação do sacramento do casamento. Dom Moacir disse que em primeiro lugar é preciso lembrar que pelo sacramento, ao jurar matrimônio, não se pode casar novamente: "não separe o homem o que Deus uniu". Porém, alguns casais optam por se casar, sem estarem dispostos às obrigações do matrimônio, o que gera separações. Para a anulação do casamento, é preciso que haja duas sentenças, em primeira e segunda instância. Não há um tribunal exclusivo para Ribeirão Preto; ele, que é a primeira instância, atende quadro dioceses (além da nossa, a de Jaboticabal, de Franca e de São João da Boa Vista). A segunda instância é em Aparecida e seus juízes é que dão as sentenças finais. Em alguns casos, a anulação precisa ser confirmada pelo Vaticano.

Em seguida, perguntamos sobre a visão de Dom Moacir a respeito da Renovação Carismática. Ele explicou que há pessoas que participam apenas dos encontros, mas também há aquelas comprometidas de fato com o movimento. Comentou sobre casos de usuários de drogas que conseguiram se livrar do vício a partir de um envolvimento com Cristo, possibilitado pela Renovação. Desta forma, há muitos exemplos positivos do movimento. O que não se deve é ficar apenas nos encontros, nos cantos e danças; a fé deve ser exercida de maneira completa.

Por fim, a PasCom trouxe o anseio de alguns fiéis, de ter maior proximidade com o Bispo; fiéis que afirmam que gostariam de tê-lo mais presente junto às paróquias. Dom Moacir disse, sorridente, que aceita novos convites, que é aberto a conhecer as comunidades, mas que tem sempre uma limitação de tempo, já que são muitas paróquias e afazeres. Afirmou que, inclusive, faz parte de seu ministério estar presente e à disposição, não somente nas celebrações de Crisma. "Podem contar comigo para tudo, mesmo que às vezes eu faça cara feia", brincou Dom Moacir. Foi quando Amanda, a caçula da PasCom, confessou que estava com medo da entrevista. Todos riram e, desta forma simpática, encerrou-se a agradável entrevista.

 

Entrevista realizada em Março de 2015 pela equipe da Pastoral da Comunicação da Comunidade Santa Teresinha do Menino Jesus - Ribeirão Preto/SP.