A história da Paróquia pelos seus personagens: Dona Olímpia

DSCN5003.jpgA data era especial:  véspera de seu aniversário de 97 anos. No quintal, várias cadeiras foram acomodadas para a entrevista de Dona Olímpia Tavares. Com família grande, algo natural para quem vive muitos anos, aos poucos outras cadeiras foram puxadas para acomodar os que vinham chegando para pedir a benção da mãe, da vó, da bisa... Até a tataraneta, de sete meses, apareceu. Ao lado do quintal, a cozinha comandada por uma de suas filhas, permitiu registrar no áudio gravado da entrevista o barulhinho de alho e cebola fritando na panela.

Como a maior parte dos "avôs" e "avós" da Vila Tamandaré, ela morava no sítio antes de vir pra cidade. Há mais de 50 anos, o marido comprou um terreno e construiu uma casinha, a mesma em que ela mora até hoje, em frente à Praça da Vila Tamandaré. "A praça nem existia e na época tinha só mais uma casa aqui em volta". Ela lembra com saudades de uma grande paineira que existia ali e foi cortada. "Era tão bonita, dava muita flor".

Quando ela se mudou para o bairro, a igreja de Santa Teresinha estava em construção. "Lembro-me do Pe. Paulo e do Pe. Renato". Enedina, sua filha, ajuda a recordar que os dois belgas eram irmãos e o último já há algum tempo faleceu. Ela cita também que o terreno era todo da Paróquia e, por conta de não se ter uma escola no bairro, optaram por ceder metade do quarteirão ao Sesi.

Dois fatos se sobressaem na memória de Dona Olímpia quando perguntada novamente sobre como era a Santa Teresinha antigamente: as festas e as novenas. "Eu participava de tudo que acontecia: das procissões da padroeira, das novenas nas casas das pessoas... e não perdia uma missa". Sua filha complementa "ela era do meu grupo de rua e adorava cantar nos encontros". Ela explicou rindo "eu gostava muito das músicas, mas não sabia cantar, só acompanhava".

Nas quermesses, ela foi mais uma recrutada pela Dona Teresa para fazer parte da equipe da barraca da Batata. "No que mais precisasse eu ajudava". O que tinha de diferente de hoje? "Na época sempre tinha bezerro. Faziam um leilão. O Silvio, marido da Ermelinda, doou muitos". Hoje, em uma cidade tomada pelo asfalto e com quase toda a população morando na zona urbana, é difícil imaginar um bezerro como prenda principal de uma quermesse, mas à época muitos tinham ou conheciam alguém com um pedacinho de terra fora da cidade. Também não faltavam terrenos baldios pelo bairro.

Questionada sobre do que sente mais saudade daquela época, ela responde "de tudo, pois hoje não posso mais ficar saindo de casa". A dificuldade de locomoção é um impedimento à participação. Porém, graças à Pastoral dos Enfermos, que a visita periodicamente, continua comungando. "Ontem mesmo foi dia de receber comunhão". Quem normalmente a leva é a Maria, esposa do Toninho. "Ela vem, faz as orações, conversa comigo. O Pe. Chico também já veio duas vezes me visitar. Gosto muito também do Vandinho".

Dona Olímpia e o marido tiveram 70 anos de vida matrimonial. Só não puderam celebrar a data com uma missa, devido à doença do esposo à época: mal de Alzheimer. "Eu e o Gastaldi tivemos uma vida muito boa. Nunca faltou respeito entre a gente. Não discutíamos. Minha mãe sempre me ensinou 'o calado ganha'. Assim, evitávamos as brigas".

O marido também era muito católico. Enedina, sua filha, explica: "se hoje sou uma boa católica, é por conta do meu pai e da minha mãe, que sempre foram exemplos". Dona Olímpia enfatiza que todos os filhos são católicos e todos tinham que ir à missa com eles. Enedina complementa "Chegava o domingo e minha mãe dizia 'hoje é um dia sagrado e por isso vamos à missa'. Então puxavam a fila ela e o meu pai. Atrás iam caminhando os dez filhos: cinco homens, cinco mulheres". Dona Olímpia enfatiza "Não ficava um pra trás".

Enedina pergunta se pode também contar histórias e explica que quando era criança, na roça, entrava muito morcego na casa, que não tinha forro. À noite, no escuro, as crianças ficavam com medo, encolhidas, mas Dona Olímpia passava em cada cama acalmando-os, dizendo para rezarem "Meu anjo da guarda, meu bom cuidador, me guardai com nosso Senhor. Nesse quarto tem quatro cantos, em cada canto tem um anjo. Eu não tenho medo de escuro, nem assombração, porque Jesus e Maria moram dentro do meu coração". Emocionada, ela fala "Se você soubesse a tranquilidade que isso nos dava, quando ela, minha mãe fazia isso". Dona Olímpia completa "Eu até essa idade nunca vi uma assombração, nada diferente! O povo contava histórias na fazenda. Mas pra mim, nada apareceu".

Dona Olimpia.pngPara períodos de seca e crise de água, Dona Olímpia dá a receita. Na roça, quando ficava muito tempo sem chover, o pessoal da fazenda se juntava e fazia uma novena. "Íamos até uma gruta, que pingava água, onde tinha uma imagem de Nossa Senhora. Uma porção de pessoas participava". Se funcionava? Levavam até sombrinha, porque já voltavam debaixo de chuva.

Da época da vida no sítio, ela se recorda também das celebrações da Semana Santa. "Acordávamos de madrugada. Tinha uma procissão muito bonita: os homens iam por um lado, as mulheres pelo outro. Era a procissão do encontro". Pra isso, o cavalo precisava ser arreado pelo marido antes das 4h da manhã. Outra lembrança está nas Folias de Reis. "Nós ajudávamos os grupos no que precisavam. No dia de Reis, era aquela festa!".

A vida na roça era de muito trabalho. "Tínhamos que cozinhar pro pessoal que ia pra lavoura". Duas vezes por semana ela fazia pão. "O meu era especial, porque eu passava no cilindro. Melhor que esses de hoje". Ela fazia também roscas e biscoitos de polvilho. Tudo no forno a lenha. Enedina complementa "meu pai é quem fazia o forno, no barro". Depois, já morando na cidade, a casa de Dona Olímpia continuava reunindo a família aos domingos para o almoço. "Minha mãe sempre cozinhou muito bem. Como ela é mineira, o tutu de feijão dela é uma delícia", explica Enedina.

Se em casa, a família sempre comeu fartamente, quando faziam visitas, os filhos tinham que se controlar. Dona Olímpia exemplificou, ao falar sobre como educou os filhos: "quando íamos visitar outros sitiantes, eu já avisava meus filhos, que se tivesse algo pra comer, era pra pegar um só... e nada de sair mexendo nas coisas, nem pegar frutas no quintal". Com saudade, daquela época, Dona Olímpia lamenta a violência dos dias atuais. "O difícil da vida na roça era pros meninos estudarem: estrada de terra, depois tinha que pegar a jardineira... chegavam uma poeira só".

Dona Olímpia encerra o bate-papo dizendo que é muito grata a Deus e contabilizando, com a ajuda da filha, seu maior patrimônio: 10 filhos, 28 netos, 38 bisnetos e 3 tataranetos.

 

Entrevista realizada em 17 de Janeiro de 2015 pela equipe da Pastoral da Comunicação da Comunidade Santa Teresinha do Menino Jesus - Ribeirão Preto/SP.