A história da Paróquia pelos seus personagens: Dona Olivia

"Você vai me perguntando e eu vou respondendo, é assim?". Foi dessa forma que começou a entrevista com Dona Olivia Fachini Bressani, 97 anos, mãe de 9 filhos, sendo 5 homens e 4 mulheres. Tem ainda 12 netos e 11 bisnetos.

DonaOlivia_Entrevista2.jpgA casa estava cheia. Um cheiro de queimado saía da cozinha, fruto de uma tentativa mal sucedida, de um dos genros, de preparar um petisco para acompanhar a cervejinha: é tradição nas manhãs de sábado filhos, genros e netos chegando pra comer, beber e papear antes do almoço. "Aqui é todo mundo unido".

"Não tenho colesterol, não tenho pressão alta, não tenho diabete... graças a Deus". Alegre e durona, durante a entrevista, deu bronca no neto que saudou à distância a equipe da PasCom. "Cumprimente direito!". Em outro momento, mandou embora a filha que quis lembrá-la de detalhes. "Quem tem que falar aqui sou eu", fez careta, seguida de um gargalhar.

Dona Olivia nasceu em uma fazenda na localidade de Sarandi, próximo a Brodowski. Um local tão pequeno, que nem Igreja tinha. "Éramos todas batizadas em Brodowski". O pai era fiscal geral da fazenda; a mãe era uma mulher nascida e criada na Argentina. "Minha mãe não gostava daqui; pra fazê-la feliz meu pai chegou a levá-la três vezes pra visitar a Argentina". Uma viagem que hoje, de avião, é rápida, mas na época levava dias no navio.  

As informações que Dona Olívia tem da mãe lhe foram contadas. "Nem conheci minha mãe". Em 1918, apenas um ano após seu nascimento, a mãe faleceu, uma das muitas vítimas da gripe espanhola. "Ela era uma mulher bonita, chique". O pai havia prometido nunca dar uma madrasta aos filhos. Assim o foi, "mesmo ele sendo ainda moço e com muita mulher querendo casar com ele". Com filhos pequenos, o pai foi buscar a sogra para ajudar com a família "Mesmo meu pai não se dando bem com minha avó, ela ficou 4 anos lá. Precisava, ?".

Dona Olívia lamenta a morte precoce da mãe. "Fui criada sem carinho, sem amor, uma coitadinha pelos cantos da casa". Talvez fruto da época e do meio, ela não recebia afeto das irmãs e irmãos. O pai exercia muito bem o papel que lhe era imputado no período: garantir a segurança da família e o seu sustento. "Ele foi um bom pai, nunca deixou faltar nada em casa".  Criou os filhos com muita disciplina. Embora nunca tenha dado um tapa em nenhum dos filhos, era bravo, daqueles que com um olhar impunha ordem. Faltava-lhe apenas o olhar treinado para perceber outras necessidades que não apenas comida e teto. "Quando fui pra escola, meu sonho era ter um estojo de lápis de cor". A escola dava só um lápis preto por aluno; nem borracha Dona Olívia tinha. "Meu pai não sabia que a gente precisava". O padrão de hierarquia familiar rígida não deixava os filhos pedirem. "Ninguém tinha coragem de pedir nada pra ele, às vezes até roupa de cama faltava". Não havia dificuldades financeiras na família; era comum comprar caixas fechadas de bacalhau, mantas de carne seca... Também sempre havia uma vaca leiteira; se uma secava, outra era comprada. Faltava ao pai a sensibilidade e aos filhos a coragem de pedir algo mais. "Até hoje eu tenho paixão por lápis de cor", suspira Dona Olívia.

DonaOlivia_Entrevista1.jpgCom o casamento dos irmãos mais velhos, ficaram na casa Dona Olívia e o pai. O trabalho era pesado em uma casa com oito cômodos. "Com 15 anos, eu fazia tudo". Torrava e moía café, limpava a casa, assava pão. "A única coisa que uma irmã mais velha me ensinou foi o ponto do forno a lenha pra assar pão. Tem que colocar uma cabeça de milho; se pegar fogo, está muito quente; se só amarelar a palha, pode colocar o pão". Ela lembra ainda que todo dia tinha que preparar polenta. "Sem polenta na mesa, meu pai não comia".

Pouco tempo depois Dona Olívia conheceu o marido. "Ele era um homem muito educado, muito bom pra mim e pros nossos filhos". Com uma expressão de saudade, afirma que o amava com toda a força do seu coração. Em seu lar, também havia fartura, nunca passou necessidade. "Deus sempre esteve do meu lado".

Dona Olivia morou 28 anos na Usina Santa Lydia, onde o marido trabalhava como feitor. "Nossa casa lá era maravilhosa, tinha horta, galinha, porco". Mudou-se para a cidade depois que o marido se aposentou. O primeiro lar fora do campo ficava onde hoje há um estacionamento do Banco Bradesco, da Av. Saudade. A casa era ruim, menos aconchegante que a da Usina. "Mas como os meninos estudavam na cidade, ficava mais fácil morar aqui, pra não precisarem pegar ônibus". Como em um ciclo, a Usina voltou a fazer parte da família: de engenheiro químico a administrativo, alguns filhos construíram carreira ali.

Há 36 anos Dona Olívia mora na Vila Tamandaré, de frente à praça. "Aqui eu me sinto muito bem, tenho uns vizinhos muito bons". O bairro, segundo Dona Olivia, era igualzinho, mas a praça, ah, essa era bem melhor cuidada. "Tinha canteiro de rosas... era lindo".

Até há alguns anos, Dona Olívia frequentava a missa da Santa Teresinha todos os domingos. "Antigamente a Igreja era mais simples, ? Agora está reformada, bonita". Foi aqui que ela passou a compreender o significado das missas. "Quando criança, a Igreja ficava longe, em Brodowski, quase não íamos. Na Usina, era uma vez por mês e eu só sabia sentar e levantar, sentar e levantar. Eu não entendia nada. Hoje eu sei a bíblia quase de cor".  Como hoje tem certa dificuldade em andar, comunga em casa, graças ao trabalho da Pastoral da Saúde.

Na Igreja, também passou muitas tardes nas reuniões do Grupo de Mães, fazendo artesanato e ensinando outras mulheres a fazerem crochê. Lembra com saudade de um almoço que reuniu Padre, ministras da eucaristia e o Bispo. Também lembra das quermesses, sempre animadas, nas quais ajudava na barraca da batata. "Que delícia aquele tempero da Dona Teresa. Quando tiver Quermesse agora vou mandar comprarem pra mim".

Contou rindo que uma vez ficou até mais tarde na festa e falou para o Padre Chico que estava preocupada em ir embora sozinha. Ele saiu andando, em 10 segundo achou um sobrinho dela e ordenou "Vá levar sua tia pra casa!". Dona Olívia aproveita a referência ao Padre Chico para cobrar "Ele tem que vir aqui tomar um cafezinho comigo. Eu gosto muito dele".

Dona Olívia adora ler. Talvez esse seja o segredo de uma mente sã mesmo próxima dos 100 anos. "Sempre tenho um livro. Acabei esse ontem, agora vou começar outro", explica mostrando um livro cristão. Também costuma ler a bíblia ao fazer suas preces. "Quando acordo, rezo todas as orações da manhã". Antes de dormir, ela repete o ritual, com as orações da noite. "Quando a gente pede com fé, com o coração limpo, Jesus ouve". Sua passagem preferida está no Evangelho de João (1:22-23): quando perguntado 'Quem és tu?', este respondeu 'Sou a voz do que clama no deserto, continuai no caminho do Senhor'. Dona Olívia comenta "é lindo isso, ?".

Assim, seguindo no caminho do Senhor, Dona Olívia é a personificação do termo "melhor idade". Considera que tem uma velhice feliz e é grata por tudo que teve. A nós, ela mostra-se um exemplo de fé e amor à vida.

 

Entrevista realizada em 17 de Janeiro de 2015 pela equipe da Pastoral da Comunicação.