A história da Paróquia pelos seus personagens: Antônio e Thereza

 

Um dos casais que personificam a Paróquia, os rostos de Seu Antônio e Dona Thereza já não são vistos nas missas e festas da igreja com frequência. Zelosos e sem ter certeza sobre o estado de saúde dos dois, que já têm idade avançada, optamos por falar primeiro com um de seus filhos sobre a viabilidade da entrevista. "Claro que podem. Vou já avisá-los de que vocês os entrevistarão", respondeu Zé Antônio. Poucos dias depois o casal já perguntava ao filho, ansioso, quando é que afinal o pessoal da igreja faria aquela entrevista.

 

A entrevista ocorreu em um fim de tarde. Cadeiras colocadas na varanda, onde costumam se sentar nas noites de calor. No canto da sala, um círio pascal, presente que receberam da paróquia após a troca do ano litúrgico. Para completar o cenário, televisão ligada na Santa Missa. "Nós já não conseguimos ir à missa. Os meninos até oferecem para passar aqui, mas a gente sente que atrapalha". Os 'meninos' a quem Dona Thereza se refere são os dois filhos (além do Zé Antônio, o Jorge), cujas idades já passaram dos 50 anos. Hoje Seu Antônio tem 81 anos e Dona Thereza 83.

A primeira surpresa da entrevista foi descobrir que Dona Thereza na verdade é Therezinha, nome que traz em seus documentos. Casados em 1953, já são 63 anos juntos. À época ela tinha 21 anos, ele 19. "Nem teve festa, só uma janta... e a mulher que preparou ainda esqueceu de colocar sal na comida", riram ambos. "Não tinha lua de mel, nem nada. No dia seguinte já estávamos capinando café", contou Seu Antônio. Os dois se conheceram em fazendas de café, localizadas em Brodowski. As famílias de ambos eram 'colonos' e constantemente se mudavam de uma propriedade para a outra. O reencontro, porém, sempre acontecia. Pelo sistema de 'colono', cada família tinha um contrato, ficando responsável por uma área da fazenda. O trabalho na lavoura não era exclusivo dos homens. Dona Thereza também ajudava. "Minha finada mãe é que cuidava mais da casa", explica Seu Antônio. "Morávamos todos juntos, na mesma casa, nós dois, as crianças, os pais meus e os dela", completa Seu Antônio, que demonstra saudade daquela época: "Era muito bom. Só viemos para a cidade porque as fazendas foram acabando. As fazendas de café hoje só têm cana. Nem as casas existem mais". Com os dois filhos já nascidos na época, ele afirma que vieram para a cidade chateados. "Foi difícil se adaptar à vida na cidade", concorda Dona Thereza.

Dona Thereza, vinda da roça, na cidade virou faxineira. Trabalhou em casas pela cidade toda, até se estabelecer como faxineira no Banco do Brasil. Na cidade, Seu Antônio começou a trabalhar em um depósito de material de construção. "O trabalho era duro. Foi lá que eu me acidentei. Era muito peso. Deu problema na coluna, na perna. Hoje estou desse jeito", apontou para o andador que o ajuda a andar com dificuldade. Depois, trabalhou na feira, na barraca de frutas da família Meda, e como guarda-noite. Foi, quando ainda era guarda noturno, que o Pe. Paulo o convidou a trabalhar, por meio período, como zelador da nossa igreja. Após se aposentar, começou a trabalhar por tempo integral como zelador. Exerceu essa função por 11 anos. Ele lembra que por diversas vezes tinha que sair depois das 21h para abrir os portões da igreja, para entrega de bebidas, nas vésperas das festas.

A primeira casa de ambos em Ribeirão Preto ficava na Rua XI de Agosto. Depois, passaram um ano em uma casa no Morro do Cipó. Em seguida compraram um terreno e construíram a casa onde moram até hoje, na Rua Frei Santo. "Essa casa, foi meu cunhado quem começou a construir. Depois, eu e a Thereza viramos pedreiro e servente da nossa casinha e terminamos a obra", conta Seu Antônio, em mais uma prova da cumplicidade do casal. "Abrimos fossa, cisterna... Não tínhamos condições de pagar ninguém pra ajudar". Para economizar o dinheiro do aluguel da antiga residência, mudaram-se com a casa própria ainda em obras. "Só tinha parede e teto", recorda Seu Antônio. Ele explica ainda que havia pouquíssimas residências na região. Dona Thereza explica que ao redor só havia hortas. "O pessoal passava na Rua Pernambuco, dois quarteirões para cima daqui, e dava pra ver as lamparinas da nossa casinha acesas". Isso foi há 50 anos.

Perguntados como era a Paróquia à época, responderam que só tinha parede e teto, nem porta, nem janela. Foi quando Seu Antônio se lembrou de uma passagem. "Um dia eu observei um rapaz trabalhando sozinho na obra. Um sol danado, subindo escada, carregando lata... pensei comigo: 'coitado do infeliz'. Depois é que fui descobrir que quem estava carregando o reboque era o Pe. Renato". Pe. Renato, irmão do Pe. Paulo, foi o primeiro dos padres belgas na Paróquia Santa Teresinha.

Dona Thereza lembra que o terreno da paróquia era imenso. Deu para construir o prédio da igreja, a área do fundo, para realização das festas, a casa dos padres e ainda dividiram o quarteirão com o Sesi. "Foi uma troca com o prefeito da época: a gente deu o terreno para escola, em troca de fazerem o asfalto do quarteirão. Mas mudou o prefeito e foi uma confusão só. Que eu me lembre, não fizeram o asfalto, acho que a paróquia teve que pagar".

Na paróquia, Dona Thereza fez parte da equipe de Batismo. "Durante muitos anos, trabalhei com a comadre Cida". Além do trabalho pastoral, marcava presença nas festas. A batata da Dona Thereza, prato típico de nossas quermesses, ficou famosa em toda a cidade. "Naquela época não tinha muita estrutura pras festas. As barracas vinham da Antarctica (companhia de bebidas da época). Era só um cercadinho. Não eram construídas que nem hoje. Daí cada uma ajudava de um jeito. Minha tia fazia uns salgadinhos e os padres até brincavam que era a barraca da cigana, porque tinha de tudo lá", conta Dona Thereza rindo. Seu Antônio lembra que, àquela época, o frango assado, outra marca de nossas quermesses, vinha de padarias do bairro. "Não tinha como assar na igreja. Só esquentávamos aqui.". Ele conta ainda que o frango era a principal prenda da barraca da Roleta. Sobre a falta de recursos, explica Dona Thereza: "Começamos a fritar batata em uns fogõezinhos de quatro bocas, que ganhamos. A paróquia não tinha dinheiro, então saíamos pedindo tudo que precisasse pro trabalho: batata, óleo, panela... Todo o bairro ajudava". Ela ressalta também que uma barraca sempre colaborava com a outra. Para garantir que não faltariam ingredientes, não poupavam distância. Iam à Usina São Geraldo pedir doação de sacos de açúcar e em Dumont buscavam amendoim, para servir torradinho ou pra fazer doces. "Esse pessoal dessas empresas estava tão acostumado com a gente, tinham tanta amizade, que nos recebiam até com cafezinho".

Na barraca da batata liderada pela Dona Thereza, dois pratos: a batata cozida curtida; e a batata frita, no estilo chips. Quando perguntada por que faziam a batata 'chips' e não 'palito', ela responde com sinceridade. "Não sei, começamos assim e deu certo". Mas o segredo para batata sequinha e crocante ela revela: colocar uma a uma no óleo bem quente. Com saudade, ela fala "A equipe toda era muita unida. Todo mundo humilde, mas com vontade de ajudar a igreja". O trabalho de fritura começava às 14h, para que à noite fosse possível atender o grande público. Nas noites mais movimentadas, chegavam a vender quase 500 porções de batata. Como ela sabe disso? Todos os números, de cada noite de quermesse, estão registrados em um caderninho. O primeiro registro é do ano de 1970. A letra trêmula mostra que Dona Thereza trabalhou na barraca até 2010. Durante esses anos todos, ela e suas amigas serviram mais de 45 mil porções de batatas. O caderninho traz outras curiosidades: durante muitos anos, a quermesse ocorria em três noites por semana, às quintas-feiras, sábados e domingos; em 1994, primeiro ano do Plano Real, a porção da batata custava apenas R$ 1,00.

Para que pudéssemos ter esses dados contabilizados, pedimos o caderninho emprestado a Dona Thereza. Ela concordou, reticente. "Cuidado com minha relíquia". Relíquia maior é a inspiradora história de vida deste casal.


Equipe de entrevistadores da PASCOM com o casal

 

PASCOM Santa Teresinha do Menino Jesus 2016